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Causas da obesidade infantil: genética ou hábitos? Como manter meu filho no peso certo

  • mariana84190
  • há 11 horas
  • 5 min de leitura
jovem menino com sobrepeso olhando para frente sorrindo

Se você chegou até aqui, provavelmente está com uma dúvida que eu escuto quase toda semana no consultório: “a causa da obesidade do meu filho é genética?” ou “eu estou errando na alimentação dele?”.


Eu sou médica endocrinologista e também sou mãe de duas crianças. E eu quero começar te dizendo algo com toda a honestidade: culpa não ajuda, mas informação boa ajuda muito.


A causa da obesidade infantil quase nunca é uma só. Na prática, eu gosto de explicar assim: a genética carrega a arma, mas o ambiente puxa o gatilho. Isso não é para assustar. É para te dar direção. Porque quando a gente entende os fatores, a gente consegue agir.


Afinal, quais são as causas da obesidade infantil?

Quando falamos em causas da obesidade infantil, podemos considerar quatro “pilares”:


1) genética e biologia: o corpo não começa do zero

Algumas crianças têm maior predisposição genética para ganhar peso. Isso pode se manifestar como:

  • Mais fome e busca por comida com alta recompensa (doces, ultraprocessados);

  • Mais facilidade de estocar energia;

  • Menos saciedade (demora para “sentir que já chega”).


Como endocrinologista, eu também observo situações em que o ganho de peso pode vir acompanhado de outros sinais (por exemplo, alterações importantes de crescimento, cansaço excessivo e alterações metabólicas). A maioria dos casos não é “doença hormonal”, mas vale investigar quando há sinais clínicos. A avaliação é individual e cuidadosa.


O ponto-chave aqui é: genética influencia, mas não determina sozinha. O dia a dia costuma decidir o resultado.


2) Hábitos alimentares: não é só “quantidade”, é padrão

No consultório, eu raramente vejo uma família “relaxada”. Eu vejo famílias cansadas, muitas vezes com rotina intensa, tentando acertar. E aí entram os padrões que, silenciosamente, empurram o peso para cima:


  • Ultraprocessados frequentes (biscoitos recheados, salgadinhos, refrigerantes, sucos adoçados, embutidos);

  • Bebidas calóricas (o “suquinho” do dia a dia pesa muito mais do que parece);

  • Beliscar constante;

  • Comer distraído (tela ligada, sem percepção de saciedade);

  • Porções adultas para crianças pequenas (isso é mais comum do que parece).


A criança aprende com o ambiente. E eu falo isso como mãe: o ambiente é mais forte do que a força de vontade.


3) Sedentarismo e telas: o tempo que some do corpo

A obesidade infantil não acontece apenas por “comer demais”. Ela acontece também porque as crianças estão se movendo menos. E não é “preguiça”. É estrutura de vida:


  • Mais tempo em tela;

  • Menos brincadeira ao ar livre;

  • Menos deslocamento a pé;

  • Menos oportunidades de esporte.


Movimento não é só “queimar caloria”. Ele regula:

  • Fome e saciedade;

  • Humor e ansiedade;

  • Sono;

  • Sensibilidade à insulina (um ponto muito importante na prevenção metabólica).


4) Sono, estresse e rotina: o eixo invisível

Sono ruim e rotina caótica bagunçam o corpo. A criança tende a:


  • Sentir mais fome;

  • Preferir alimentos mais palatáveis;

  • Ter mais dificuldade de autorregular porções.


Eu vejo isso claramente em semanas de prova, períodos de férias, mudanças familiares, separação dos pais, luto, bullying, crises de ansiedade. E aqui entra a sensibilidade: às vezes, a comida vira uma fonte de consolo e a família não “erra”. Ela tenta cuidar com o recurso que tem.


Por que a obesidade infantil é preocupante (na infância e na vida adulta)?

Quando eu converso com os pais, eu tento tirar o foco da estética e o colocá-lo no que importa: saúde presente e futura.


Na infância, a obesidade pode se associar a:

  • Pressão arterial alterada;

  • Alterações de colesterol e triglicerídeos;

  • Resistência à insulina (porta de entrada do diabetes no futuro);

  • Esteatose hepática (gordura no fígado);

  • Apneia do sono e ronco;

  • Dor articular e cansaço;

  • Impacto emocional (autoestima, bullying, isolamento).


E, na vida adulta, quanto mais cedo o excesso de peso se instala e se mantém, maior a chance de persistir. Isso pode aumentar risco de:

  • Diabetes tipo 2;

  • Doenças cardiovasculares;

  • Complicações ortopédicas;

  • Piora de saúde mental;

  • Risco aumentado para vários tipos de câncer.


A boa notícia (e eu faço questão de reforçar) é: intervenção precoce funciona. Pequenas mudanças consistentes fazem diferença.


Genética ou hábitos? A resposta honesta é: os dois (mas hábitos são a alavanca)

Se eu tivesse que te dar uma frase para guardar, seria esta: você não controla a genética do seu filho, mas você pode ajustar o ambiente com amor e estratégia.


E aqui vai um cuidado importante, como médica e mãe: o objetivo não é “emagrecer a criança a qualquer custo”. O objetivo é ajudá-la a crescer com saúde. Muitas vezes, melhorar hábitos permite que a criança:

  • Estabilize o ganho de peso;

  • Cresça em altura;

  • E, com o tempo, o corpo encontre um equilíbrio melhor.


Isso é muito diferente de dietas restritivas, que podem piorar a relação com a comida.


Como manter meu filho no peso certo: dicas práticas e viáveis (sem terrorismo)


criança pequena sentada à mesa comendo um prato de salada

1) Faça do básico o padrão (e não a exceção)

  • Comida de verdade como base: arroz, feijão, ovos, carnes, legumes, frutas, iogurte natural, tubérculos;

  • Ultraprocessados como “às vezes”, não como lanche automático.


Dica de mãe: eu não “proíbo tudo”. Eu planejo as refeições, porque o que fica fácil, vira padrão.


2) Estabeleça rotina simples de refeições

Criança funciona bem com previsibilidade:

  • Café da manhã;

  • Almoço;

  • Lanche;

  • Jantar.


Isso reduz beliscos e melhora saciedade. Não precisa ser militar, mas precisa ser minimamente estável.


3) Bebida é um dos pontos mais rápidos para melhorar

  • Priorize água;

  • Leite e derivados sem excesso de açúcar conforme orientação do pediatra;

  • Suco: se usar, que seja ocasional e em pequena quantidade (e, quando possível, prefira a fruta inteira).


4) Tela com limites claros, mas sem guerra

Tela é realidade. A estratégia é:

  • Definir horários;

  • Evitar durante as refeições;

  • Criar alternativas “competitivas”: brincadeiras, bola, passeio curto, parque.


5) Movimento diário, do jeito que dá

Não precisa virar atleta.

  • 20–40 minutos de brincadeira ativa já muda o dia;

  • Fim de semana com passeio ao ar livre conta muito;

  • Se der para incluir esporte 2–3x/semana, ótimo.


6) Cuide do sono como se fosse parte do tratamento (porque é)

O sono é um regulador metabólico. Tente:

  • Horário de dormir relativamente fixo;

  • Reduzir telas antes de dormir;

  • Ritual simples (banho, história, luz baixa).


7) Converse sobre corpo com respeito

Como mãe e endocrinologista, eu sou muito firme nisso:

  • Evite “você está gordo”.

  • Evite “não come isso senão engorda”.

  • Prefira “vamos cuidar da sua saúde”, “vamos fortalecer seu corpo”, “vamos escolher alimentos que te dão energia”.


Isso protege a autoestima e reduz o risco de comer escondido.


Quando procurar ajuda profissional?

Procure o pediatra (e considere endocrinopediatria/nutrição) se:

  • O ganho de peso está rápido e persistente;

  • Há histórico familiar forte e você quer prevenção estruturada;

  • Existem sinais associados (ronco importante, cansaço, dor, alterações emocionais);

  • Você já tentou mudanças e se sente sem direção.


Um bom acompanhamento não é julgamento. É plano de ação com acolhimento.


Um abraço, 

Dra. Daniela Russo

CRMMG 41385 RQE 24679 RQE 24.678


Nota importante: este texto é educativo e não substitui avaliação médica individual. Se você estiver preocupada(o) com o crescimento do seu filho, vale conversar com o pediatra e, quando indicado, com endocrinopediatria e nutricionista.

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