Causas da obesidade infantil: genética ou hábitos? Como manter meu filho no peso certo
- mariana84190
- há 11 horas
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Se você chegou até aqui, provavelmente está com uma dúvida que eu escuto quase toda semana no consultório: “a causa da obesidade do meu filho é genética?” ou “eu estou errando na alimentação dele?”.
Eu sou médica endocrinologista e também sou mãe de duas crianças. E eu quero começar te dizendo algo com toda a honestidade: culpa não ajuda, mas informação boa ajuda muito.
A causa da obesidade infantil quase nunca é uma só. Na prática, eu gosto de explicar assim: a genética carrega a arma, mas o ambiente puxa o gatilho. Isso não é para assustar. É para te dar direção. Porque quando a gente entende os fatores, a gente consegue agir.
Afinal, quais são as causas da obesidade infantil?
Quando falamos em causas da obesidade infantil, podemos considerar quatro “pilares”:
1) genética e biologia: o corpo não começa do zero
Algumas crianças têm maior predisposição genética para ganhar peso. Isso pode se manifestar como:
Mais fome e busca por comida com alta recompensa (doces, ultraprocessados);
Mais facilidade de estocar energia;
Menos saciedade (demora para “sentir que já chega”).
Como endocrinologista, eu também observo situações em que o ganho de peso pode vir acompanhado de outros sinais (por exemplo, alterações importantes de crescimento, cansaço excessivo e alterações metabólicas). A maioria dos casos não é “doença hormonal”, mas vale investigar quando há sinais clínicos. A avaliação é individual e cuidadosa.
O ponto-chave aqui é: genética influencia, mas não determina sozinha. O dia a dia costuma decidir o resultado.
2) Hábitos alimentares: não é só “quantidade”, é padrão
No consultório, eu raramente vejo uma família “relaxada”. Eu vejo famílias cansadas, muitas vezes com rotina intensa, tentando acertar. E aí entram os padrões que, silenciosamente, empurram o peso para cima:
Ultraprocessados frequentes (biscoitos recheados, salgadinhos, refrigerantes, sucos adoçados, embutidos);
Bebidas calóricas (o “suquinho” do dia a dia pesa muito mais do que parece);
Beliscar constante;
Comer distraído (tela ligada, sem percepção de saciedade);
Porções adultas para crianças pequenas (isso é mais comum do que parece).
A criança aprende com o ambiente. E eu falo isso como mãe: o ambiente é mais forte do que a força de vontade.
3) Sedentarismo e telas: o tempo que some do corpo
A obesidade infantil não acontece apenas por “comer demais”. Ela acontece também porque as crianças estão se movendo menos. E não é “preguiça”. É estrutura de vida:
Mais tempo em tela;
Menos brincadeira ao ar livre;
Menos deslocamento a pé;
Menos oportunidades de esporte.
Movimento não é só “queimar caloria”. Ele regula:
Fome e saciedade;
Humor e ansiedade;
Sono;
Sensibilidade à insulina (um ponto muito importante na prevenção metabólica).
4) Sono, estresse e rotina: o eixo invisível
Sono ruim e rotina caótica bagunçam o corpo. A criança tende a:
Sentir mais fome;
Preferir alimentos mais palatáveis;
Ter mais dificuldade de autorregular porções.
Eu vejo isso claramente em semanas de prova, períodos de férias, mudanças familiares, separação dos pais, luto, bullying, crises de ansiedade. E aqui entra a sensibilidade: às vezes, a comida vira uma fonte de consolo e a família não “erra”. Ela tenta cuidar com o recurso que tem.
Por que a obesidade infantil é preocupante (na infância e na vida adulta)?
Quando eu converso com os pais, eu tento tirar o foco da estética e o colocá-lo no que importa: saúde presente e futura.
Na infância, a obesidade pode se associar a:
Pressão arterial alterada;
Alterações de colesterol e triglicerídeos;
Resistência à insulina (porta de entrada do diabetes no futuro);
Esteatose hepática (gordura no fígado);
Apneia do sono e ronco;
Dor articular e cansaço;
Impacto emocional (autoestima, bullying, isolamento).
E, na vida adulta, quanto mais cedo o excesso de peso se instala e se mantém, maior a chance de persistir. Isso pode aumentar risco de:
Doenças cardiovasculares;
Complicações ortopédicas;
Piora de saúde mental;
Risco aumentado para vários tipos de câncer.
A boa notícia (e eu faço questão de reforçar) é: intervenção precoce funciona. Pequenas mudanças consistentes fazem diferença.
Genética ou hábitos? A resposta honesta é: os dois (mas hábitos são a alavanca)
Se eu tivesse que te dar uma frase para guardar, seria esta: você não controla a genética do seu filho, mas você pode ajustar o ambiente com amor e estratégia.
E aqui vai um cuidado importante, como médica e mãe: o objetivo não é “emagrecer a criança a qualquer custo”. O objetivo é ajudá-la a crescer com saúde. Muitas vezes, melhorar hábitos permite que a criança:
Estabilize o ganho de peso;
Cresça em altura;
E, com o tempo, o corpo encontre um equilíbrio melhor.
Isso é muito diferente de dietas restritivas, que podem piorar a relação com a comida.
Como manter meu filho no peso certo: dicas práticas e viáveis (sem terrorismo)

1) Faça do básico o padrão (e não a exceção)
Comida de verdade como base: arroz, feijão, ovos, carnes, legumes, frutas, iogurte natural, tubérculos;
Ultraprocessados como “às vezes”, não como lanche automático.
Dica de mãe: eu não “proíbo tudo”. Eu planejo as refeições, porque o que fica fácil, vira padrão.
2) Estabeleça rotina simples de refeições
Criança funciona bem com previsibilidade:
Café da manhã;
Almoço;
Lanche;
Jantar.
Isso reduz beliscos e melhora saciedade. Não precisa ser militar, mas precisa ser minimamente estável.
3) Bebida é um dos pontos mais rápidos para melhorar
Priorize água;
Leite e derivados sem excesso de açúcar conforme orientação do pediatra;
Suco: se usar, que seja ocasional e em pequena quantidade (e, quando possível, prefira a fruta inteira).
4) Tela com limites claros, mas sem guerra
Tela é realidade. A estratégia é:
Definir horários;
Evitar durante as refeições;
Criar alternativas “competitivas”: brincadeiras, bola, passeio curto, parque.
5) Movimento diário, do jeito que dá
Não precisa virar atleta.
20–40 minutos de brincadeira ativa já muda o dia;
Fim de semana com passeio ao ar livre conta muito;
Se der para incluir esporte 2–3x/semana, ótimo.
6) Cuide do sono como se fosse parte do tratamento (porque é)
O sono é um regulador metabólico. Tente:
Horário de dormir relativamente fixo;
Reduzir telas antes de dormir;
Ritual simples (banho, história, luz baixa).
7) Converse sobre corpo com respeito
Como mãe e endocrinologista, eu sou muito firme nisso:
Evite “você está gordo”.
Evite “não come isso senão engorda”.
Prefira “vamos cuidar da sua saúde”, “vamos fortalecer seu corpo”, “vamos escolher alimentos que te dão energia”.
Isso protege a autoestima e reduz o risco de comer escondido.
Quando procurar ajuda profissional?
Procure o pediatra (e considere endocrinopediatria/nutrição) se:
O ganho de peso está rápido e persistente;
Há histórico familiar forte e você quer prevenção estruturada;
Existem sinais associados (ronco importante, cansaço, dor, alterações emocionais);
Você já tentou mudanças e se sente sem direção.
Um bom acompanhamento não é julgamento. É plano de ação com acolhimento.
Um abraço,
Dra. Daniela Russo
CRMMG 41385 RQE 24679 RQE 24.678
Nota importante: este texto é educativo e não substitui avaliação médica individual. Se você estiver preocupada(o) com o crescimento do seu filho, vale conversar com o pediatra e, quando indicado, com endocrinopediatria e nutricionista.






















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