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Para que serve o estrogênio?

Dra. Daniela Russo
17 de ago.
8 min de leitura
o estrogênio desempenha inúmeras funções no organismo feminino

Durante muitos anos, o estrogênio foi reduzido ao papel de hormônio da fertilidade. Quando uma mulher menstruava, engravidava, quando entrava na menopausa ou quando surgia a discussão sobre reposição hormonal, era ele quem ocupava o centro das conversas.


Entender o estrogênio dessa forma não está totalmente errado, mas é uma interpretação limitada. Na endocrinologia, o estrogênio é considerado um dos principais reguladores da saúde feminina. Sua ação começa muito antes da primeira menstruação e continua influenciando praticamente todos os sistemas do organismo ao longo da vida. Ossos, músculos, cérebro, coração, pele, metabolismo e função sexual dependem, em maior ou menor grau, da sua presença.


É justamente por isso que tantas mulheres acabam se perguntando: afinal, para que serve o estrogênio? A resposta passa por um conceito que poucas pessoas conhecem: o estrogênio não é um único hormônio.


Estrogênio é uma família de hormônios

Quando usamos a palavra "estrogênio", estamos nos referindo a um grupo de hormônios esteroides com estruturas e funções semelhantes, mas não idênticas.


Os três principais são:


Estradiol

É o mais potente e biologicamente ativo. Durante a fase reprodutiva, é o principal estrogênio produzido pelos ovários e o grande responsável pelos efeitos hormonais que observamos no organismo feminino.


Estrona

Possui uma potência menor e passa a ser o estrogênio predominante após a menopausa. Ela é produzida principalmente pela conversão de hormônios androgênicos no tecido adiposo (gordura).


Estriol 

É o menos potente dos três e assume importância principalmente durante a gestação, quando é produzido em grandes quantidades pela placenta.


Essa diferenciação ajuda a desfazer um equívoco bastante comum. Após a menopausa, a mulher não deixa completamente de produzir estrogênio. O que ocorre é uma queda importante da produção ovariana de estradiol, enquanto pequenas quantidades de estrona continuam sendo produzidas em outros tecidos.


Mas, sem dúvida, essa mudança altera profundamente o funcionamento do organismo.


O estrogênio não atua apenas no aparelho reprodutor

Se perguntarmos qual é a função da insulina, a maioria das pessoas responderá que ela controla a glicose. Se perguntarmos sobre o hormônio da tireoide, a resposta provavelmente será metabolismo.


Com o estrogênio, isso não acontece porque ele exerce funções em diversos órgãos ao mesmo tempo. Isso é possível porque existem receptores de estrogênio distribuídos por praticamente todo o organismo. Quando o hormônio se liga a esses receptores, ele modifica a atividade das células, regula a expressão de genes e influencia processos metabólicos que vão muito além da reprodução.


É por isso que a queda do estrogênio pode provocar sintomas tão diferentes entre si.


Uma mulher pode perceber alterações no sono, enquanto outra nota perda de força muscular. Algumas apresentam ressecamento vaginal; outras observam aumento da gordura abdominal ou piora da memória. Embora pareçam problemas independentes, todos podem ter uma mesma origem hormonal.


Muito além do ciclo menstrual

É claro que o estrogênio desempenha um papel essencial na fertilidade. Ele participa do desenvolvimento dos folículos ovarianos, estimula o crescimento do endométrio durante o ciclo menstrual, favorece alterações no muco cervical e contribui para que a ovulação aconteça no momento adequado.


Mas limitar sua função ao sistema reprodutor seria ignorar a maior parte da sua atuação. Na prática, o ciclo menstrual representa apenas uma das consequências da ação estrogênica.


O estrogênio protege a saúde dos ossos

Uma das primeiras consequências do declínio hormonal aparece no tecido ósseo.

Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, o osso não é uma estrutura estática. Ele está em constante renovação. Enquanto algumas células removem tecido ósseo antigo (osteoclastos), outras formam osso novo (osteoblastos).


O estrogênio ajuda a manter esse equilíbrio. É por isso que a perda de massa óssea acelera nos primeiros anos após a menopausa, aumentando o risco de osteopenia, osteoporose e fraturas.


Não por acaso, uma das indicações reconhecidas da terapia hormonal é justamente a prevenção da perda óssea em mulheres com indicação.


Massa muscular: uma função pouco conhecida do estrogênio

Nos últimos anos, diversos estudos passaram a demonstrar que o estrogênio também exerce um papel importante na manutenção da massa muscular.


Ele participa da síntese de proteínas musculares, influencia o funcionamento das mitocôndrias — responsáveis pela produção de energia das células — e melhora a resposta do músculo ao exercício físico.


Isso ajuda a explicar uma situação bastante frequente no consultório:

A mulher após os 40, 45 anos continua treinando, mantém uma alimentação semelhante, mas percebe que perdeu força, recupera-se mais lentamente após os treinos e encontra muito mais dificuldade para preservar ou ganhar massa magra.


Naturalmente, o envelhecimento, a redução da atividade física e a ingestão inadequada de proteínas também participam desse processo. Mas a queda do estradiol é um dos fatores que contribuem para essa mudança.


Além disso, a perda de massa muscular não é apenas uma questão estética. Ela reduz o gasto energético, aumenta o risco de quedas, compromete a funcionalidade e está diretamente relacionada à qualidade do envelhecimento.


O estrogênio também participa do metabolismo

Outro efeito bastante característico da transição para a menopausa é a mudança na distribuição da gordura corporal.


Durante a vida reprodutiva, a gordura tende a se concentrar principalmente na região dos quadris e das coxas. Com o declínio do estradiol, ocorre uma redistribuição desse tecido adiposo, favorecendo o acúmulo de gordura visceral, aquela localizada ao redor dos órgãos.


Essa alteração não acontece apenas por causa do hormônio. Envelhecimento, redução da massa muscular, menor gasto energético, alterações do sono e mudanças no estilo de vida também exercem influência.


Mas o estrogênio participa desse processo ao modular a sensibilidade à insulina, o metabolismo energético e a forma como o organismo armazena gordura.


É justamente essa combinação de fatores que faz muitas mulheres relatarem uma mudança importante no formato do corpo durante a perimenopausa, mesmo sem um aumento expressivo do peso corporal.


O coração também sente a queda do estrogênio

Até a menopausa, as mulheres apresentam, em média, menor incidência de doenças cardiovasculares quando comparadas aos homens da mesma faixa etária. Embora diversos fatores expliquem essa diferença, o estrogênio exerce um papel importante nessa proteção.


Ele atua diretamente sobre o endotélio (camada que reveste os vasos sanguíneos) estimulando a produção de óxido nítrico, uma substância que favorece a dilatação das artérias e contribui para um bom funcionamento vascular. Além disso, influencia o metabolismo do colesterol, melhora a sensibilidade à insulina e participa da regulação de processos inflamatórios relacionados ao desenvolvimento da aterosclerose (placas nas artérias).


Quando o estradiol diminui, esse cenário começa a mudar. O perfil lipídico tende a se tornar menos favorável, a gordura visceral aumenta e a resistência à insulina pode se tornar mais evidente. É justamente por isso que o risco cardiovascular da mulher cresce de forma importante após a menopausa.


Cérebro, humor e memória: uma influência que muitas mulheres só percebem quando o estrogênio diminui

Durante a transição para a menopausa, é comum ouvir relatos como "parece que minha memória piorou", "estou mais esquecida" ou "não consigo mais me concentrar como antes".


Essas queixas não são imaginárias. Existem receptores de estrogênio em diversas regiões do cérebro relacionadas à memória, à atenção, ao aprendizado, à regulação da temperatura corporal e ao humor. O hormônio também influencia neurotransmissores importantes, como serotonina, dopamina e noradrenalina.


Por isso, a redução do estradiol pode contribuir para sintomas como dificuldade de concentração, sensação de "névoa mental", alterações do sono, irritabilidade e mudanças de humor.


É importante destacar que esses sintomas são multifatoriais. Privação de sono, ansiedade, depressão, doenças da tireoide, deficiência de ferro, vitamina B12 ou vitamina D também podem provocar manifestações semelhantes. Na endocrinologia, dificilmente um sintoma é explicado por um único hormônio.


Pele, cabelos e saúde íntima

Outro tecido altamente dependente do estrogênio é a pele. O hormônio estimula a produção de colágeno, contribui para a hidratação, melhora a vascularização e ajuda a manter a elasticidade cutânea. Com seu declínio, é comum observar redução da espessura da pele, maior ressecamento e perda gradual da firmeza.


Nos cabelos, o estrogênio também influencia o ciclo de crescimento dos fios. Embora a queda capilar feminina tenha múltiplas causas, a diminuição hormonal pode favorecer alterações na densidade e no volume dos cabelos, especialmente quando associada a fatores genéticos, deficiência de ferro, doenças da tireoide ou outras alterações hormonais.


A região íntima também sofre os efeitos dessa mudança. Vulva, vagina, uretra e bexiga possuem receptores estrogênicos e dependem desse estímulo hormonal para manter sua estrutura e função.


Quando os níveis de estradiol diminuem, podem surgir ressecamento vaginal, dor durante a relação sexual, redução da lubrificação, infecções urinárias de repetição e urgência urinária. Esse conjunto de alterações recebe o nome de síndrome geniturinária da menopausa e merece atenção, pois compromete significativamente a qualidade de vida, mas costuma responder bem ao tratamento adequado.


O declínio do estrogênio começa antes da menopausa


o declínio de estrogênio começa na perimenopausa, fase que antecede a menopausa

Existe outro conceito que costuma surpreender muitas mulheres: a menopausa não começa no dia da última menstruação. Antes dela, existe um período chamado perimenopausa ou transição menopausal, que pode durar vários anos.


Nessa fase, a reserva de folículos ovarianos diminui progressivamente e os ovários passam a responder de maneira menos previsível aos estímulos hormonais. Como consequência, o estradiol deixa de seguir um padrão regular.


Ao contrário do que muitos imaginam, seus níveis não caem de forma linear. Eles podem oscilar intensamente, alternando períodos de produção elevada com quedas importantes. É justamente essa instabilidade hormonal que explica por que algumas mulheres apresentam ciclos menstruais irregulares, ondas de calor, alterações do sono e mudanças de humor mesmo antes de parar de menstruar. Somente após a menopausa ocorre uma redução persistente da produção ovariana de estradiol.


Essa diferença é importante porque muitas pacientes chegam ao consultório acreditando que um exame isolado de estradiol será capaz de confirmar ou descartar a perimenopausa. Na prática, isso raramente acontece. Como os níveis hormonais variam bastante nessa fase, o diagnóstico costuma ser predominantemente clínico, levando em consideração idade, histórico menstrual, sintomas e contexto individual.


Quando a reposição hormonal pode ser indicada?

Durante muitos anos, criou-se a ideia de que a terapia hormonal aumentava o risco de câncer de mama para todas as mulheres e, por isso, deveria ser evitada. Hoje sabemos que essa interpretação foi simplificada demais.


Nas últimas duas décadas, novos estudos e reanálises permitiram compreender melhor quem realmente pode se beneficiar do tratamento, quais são as contraindicações e como individualizar a escolha da terapia.


Atualmente, as principais sociedades médicas consideram que a terapia hormonal é o tratamento mais eficaz para os sintomas vasomotores da menopausa, como ondas de calor e suores noturnos, além de apresentar benefícios importantes para a síndrome geniturinária da menopausa e para a prevenção da perda óssea em mulheres selecionadas.


Isso, porém, não significa que toda mulher precise fazer reposição hormonal. Essa é uma das maiores confusões que observo na prática clínica.


A decisão de iniciar o tratamento não depende apenas de um exame mostrando estradiol baixo. Ela considera um conjunto de fatores, entre eles:

  • idade da paciente;

  • intensidade dos sintomas;

  • tempo desde a menopausa;

  • presença ou ausência do útero;

  • histórico pessoal e familiar;

  • risco cardiovascular;

  • risco de trombose;

  • saúde mamária;

  • risco de osteoporose;

  • preferências e objetivos da paciente.


Outro ponto importante é que não existe uma única forma de reposição hormonal. O tratamento pode utilizar diferentes tipos de estrogênios, diferentes progestagênios e diferentes vias de administração — oral, transdérmica ou vaginal — cada uma com indicações e características próprias.


É justamente essa individualização que torna a avaliação médica tão importante.


Mais do que tratar sintomas, compreender a saúde hormonal

Responder à pergunta "para que serve o estrogênio?" é, na verdade, compreender como funciona uma parte essencial da fisiologia feminina.


Muito além da fertilidade, esse grupo de hormônios participa da manutenção da massa óssea e muscular, da saúde cardiovascular, da função cerebral, da composição corporal, da pele, da saúde íntima e da qualidade de vida. Quando seus níveis começam a diminuir, especialmente durante a perimenopausa e a menopausa, o organismo inteiro percebe essa mudança.


Nem toda mulher viverá essa fase da mesma forma. Algumas terão poucos sintomas; outras poderão se beneficiar de mudanças no estilo de vida, acompanhamento endocrinológico ou, quando houver indicação, da terapia hormonal.


O mais importante é abandonar a ideia de que o estrogênio é apenas "o hormônio da fertilidade" ou que a menopausa deve ser enfrentada como uma etapa em que é preciso simplesmente conviver com os sintomas.


Hoje, conhecemos muito mais sobre a fisiologia hormonal feminina do que há duas décadas. Esse conhecimento permite oferecer uma abordagem mais individualizada, baseada em evidências científicas e focada não apenas em aliviar sintomas, mas em preservar saúde, funcionalidade e qualidade de vida ao longo do envelhecimento.


Um abraço, 

Dra. Daniela Russo

CRMMG 41385 RQE 24679 RQE 24.678


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